Anos antes de o ESG virar uma das siglas mais reverenciadas do mundo corporativo, o empresário Ronaldo Stabile já incorporava as práticas de responsabilidade social e ambiental em seu negócio, uma fábrica de reciclagem de lixo eletrônico de 1.500 metros quadrados em Jacareí, no interior de São Paulo.

A Reurbi, fundada em 2012, é praticamente sinônimo de ESG (sigla em inglês para melhorias ambientais, sociais e de governança). Ela transforma aparelhos de TI descartados em peças de informática úteis vendidas a ONGs e a consumidores das classes C, D e E.

Em oito anos, a empresa recondicionou mais de 1.500 toneladas de matéria-prima —celulares, teclados, monitores, mouses, cabos, servidores e processadores inutilizados— em 23 mil equipamentos eletrônicos.

Cerca de 500 ONGs adquiriram os produtos e mais de 60 mil pessoas foram beneficiadas em projetos sociodigitais, de acordo com a Reurbi, que emprega 39 pessoas.

Agora, esse projeto será escalonado em uma parceria com a Abes (Associação Brasileira das Empresas de Software), que reúne grandes companhias de tecnologia, e o Instituto Observatório do Terceiro Setor. As instituições criaram um programa que oferece a qualquer empresa do país um serviço gratuito de logística reversa nos descartes de aparelhos de TI. Os recursos da reciclagem são destinados a institutos com projetos de inclusão digital escolhidos pela doadora.

A reciclagem regularizada do setor privado pode gerar uma receita anual de R$ 162,7 milhões, segundo cálculo das organizações. Revertendo 5% desse valor a projetos sociais, são R$ 8,1 milhões por ano para a inclusão digital da população vulnerável.

No programa, a Reurbi coleta equipamentos com isenção de custos em todo o Brasil e realiza uma avaliação financeira dos lotes. Quem doa os equipamentos pode escolher se prefere destinar máquinas recicladas a uma instituição ou investir o recurso em capacitação e inclusão digital. A única exigência é que a ponta da cadeia seja uma organização de impacto social.

“A gente está fazendo muito pouco no Brasil diante do potencial que temos. É muita coisa jogada no lixo e no ambiente, em um país com acesso tão desigual”, diz Rodolfo Fücher, presidente da Abes, que trabalhou 30 anos na Microsoft, onde também desenvolvia projetos de filantropia.

O lixo eletrônico traz consequências graves para a economia e para a saúde da população. Dominado pela informalidade, o descarte tecnológico expõe trabalhadores a elementos tóxicos e poluentes, como mercúrio, chumbo e níquel.

O país produz 2,1 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, segundo o relatório E-waste, da ONU, com dados de 2019. São 10 quilos por pessoa, menos de 150 toneladas recicladas ao ano e um cenário regulatório de pouca fiscalização.

Desse montante, que inclui produtos de linha branca, 10% provêm do setor de tecnologia e telecomunicações —cerca de 210 mil toneladas, sendo as companhias privadas responsáveis por 30% do lixo e o governo, por 35%, conforme dados setoriais.

O acesso à tecnologia também não apresenta números animadores. Somente 16% das casas brasileiras possuem um computador de mesa e 26% um notebook, de acordo com a última pesquisa TIC Domicílios, de 2019, do Cetic.br. Além disso, o setor de TI é carente de mão de obra capacitada.

O primeiro projeto de programa, batizadon de ReciTech, já está em curso. Pretende destinar computadores a crianças, adolescentes e jovens com deficiência visual.

A empresa de tecnologia MicroPower doou 900 kg em aparelhos que não eram mais utilizados por funcionários. A Reurbi fez o inventário e conseguiu recuperar a metade do material, avaliada em R$ 28 mil.

“A MicroPower descartou cem equipamentos em desuso, e disso convertemos em 46. Minha empresa ganha com o material que não converti para ele, os 54 equipamentos. Vamos desmanufaturar, desmontar e vender os produtos”, diz Ronaldo Stabile.

A depender do item, a Reurbi consegue vender a matéria-prima a cerca de R$ 10 o quilo para diferentes indústrias. A sucata eletrônica que deriva de cabos, telas e teclados é comercializada a empresas certificadas que compram aço e cobre. Stabile também consegue remanejar as peças a outros sistemas obsoletos, criando computadores funcionais de segunda linha, consumidos pelas classes mais pobres.

“Um computador novo no mercado sai na faixa de R$ 5.000. Um equipamento remaker [refeito] eu vendo a R$ 2.500, e o que vai para doação por comodato, consideramos só o custo, que é R$ 1.500”, diz o empresário.

O fim dos 46 equipamentos do projeto inaugural é um programa do Ministério da Defesa chamado “Olhos de Cidadania”, que insere crianças com deficiência visual na informática. A MicroPower cedeu um software para cegos e a Reurbi forneceu os computadores.

Na projeção da Abes e da Reurbi, o setor privado pode levar 6,2 mil toneladas de equipamentos à reciclagem até 2023, o que equivaleria a menos 74 mil toneladas de metais tóxicos no ambiente.

A meta anual do programa é coletar 250 toneladas, recriar 150 equipamentos e mandá-los a 25 projetos.

Os organizadores lembram que a Política Nacional Resíduos Sólidos, implementada em 2010, determina que a responsabilidade pelo ciclo de vida de um produto sólido é compartilhada e inclui os consumidores.

A iniciativa ainda não vale para pessoas físicas, mas nada impede que empresas, ao enviarem os materiais descartados, incluam peças obsoletas doadas por seus funcionários.

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