Para cada empresa de tecnologia do Vale do Silício, nos Estados Unidos, existem dezenas de versões chinesas, mas não são apenas cópias. Com visões de negócio diferentes, a China emergiu no cenário mundial com um conjunto de empresas globais competitivas. Cada vez mais, os modelos de sucesso estão sendo estudados e replicados em outros mercados, como o brasileiro.

Hoje, a China é representada por seis grandes empresas de tecnologia: Tencent, Alibaba, Baidu, ByteDance, Meituan e Didi Xuxing, que controlam dezenas de outras empresas que vão desde serviços de saúde até pagamentos. Por meio de superapps, usando apenas uma plataforma, um cidadão chinês pode fazer compras, realizar pagamentos, agendar consultas e conversar com amigos.

A Alibaba é detentora da taobao.com (ecommerce), KuWo Music (música), Weibo (redes sociais), Alibaba Cloud (nuvem), Alipay (pagamentos), apenas para citar alguns exemplos.

A fórmula para o sucesso das big techs chinesas tem uma combinação de ingredientes um pouco diferente da adotada em boa parte do Ocidente, explica Otávio Miranda, cientista político formado pela Renmin University, na China.

Primeiro, a competitividade do mercado doméstico é brutal e sem paralelo. Uma boa representação da disputa local são aquelas fotos com milhares de bicicletas enfileiradas —de um número incontável de diferentes marcas.

As empresas cresceram aproveitando investimento públicos em infraestrutura, e investindo e comprando outras empresas privadas.

“As empresas cresceram sem participação do estado chinês. São fruto de décadas de investimento público na construção da infraestrutura urbana e de redes fundamental ao crescimento e desenvolvimento de uma nova indústria de serviços pronta para avançar centenas de milhões de habitantes.”, diz. “Ao mesmo tempo em que tinham liberdade e incentivo para fazer negócios fora da China”.

Também há incentivo a fusões e aquisições. Baidu, Alibaba e Tencent controlam ou investem em pelo menos 50% das startups unicórnios chinesas. “As empresas de tecnologia chinesas funcionam da seguinte forma: ‘sua margem é minha oportunidade’. Uma forma de crescer é via aquisição de novas empresas”, diz Miranda.

“Tanto Alibaba quanto Tencent e as outras empresas saíram fazendo aquisições assim que uma nova empresa surgia —e esse é o espírito chinês”, explica.

A indústria de venture capital, segmento em que fundos investem em novos negócios, também foi responsável por potencializar a inovação na China. Segundo o South Morning China, que oferece o dado público mais recente sobre o setor, esse tipo de investimento alcançou em 2018 a marca de US$ 70,5 bilhões (R$ 405,7 bilhões), então, 37% do total mundial.

Para efeito de comparação, naquele ano, o Brasil contou com US$ 700 milhões (R$ 3,6 bilhões) em investimentos de venture capital, segundo dados da Abvcap, entidade que representa o setor.

“Tecnologia era um setor dominado por americanos, que tinham antes apenas a concorrência europeia”, diz Leonardo Azevedo, professor do departamento de direção geral do ISE Business School. “Agora, a Alibaba já se expandiu para fora da China e é uma nova competidora global”.

Para Azevedo, existe um certo preconceito infundado no Ocidente com empresas da China por causa de sua relação com o Estado.

“Devemos analisar um mercado chinês como vetores de bons negócios, desapegando da ideia de controle estatal”, diz. “Eles investiram para serem um player capaz de falar de igual para igual com os EUA, principalmente no setor de tecnologia”.

Otávio Miranda avalia que o mercado brasileiro tem mais semelhanças com o chinês do que o americano.

“China, Índia, Brasil, Indonésia e Nigéria apresentam as maiores oportunidades para crescimento e transformação digital. Apostar em negócios que integram uma só plataforma é uma tendência bem absorvida no país”, diz.

Para se tornar um superapp, de olho no modelo de negócio do Alibaba, a Magazine Luiza fez mais de 20 aquisições desde 2017, envolvendo ecommerce (Netshoes, Shoestock, Estante Virtual, Época Cosméticos, tonolucro, aiqfome), logística (logbee, GLF, sinclog), serviços financeiros (Hub Fintech), marketing (inlocomedia) e entretenimento (Jovem Nerd, Canaltech, Steal the Look).

“Nem Jack Ma [Alibaba], nem Jeff Bezos [Amazon]; preferimos Luiza Trajano”, diz Eduardo Galanternick, vice-presidente de negócios da Magazine Luiza.

“Assim como o modelo chinês, o brasileiro está conectado através do celular. Acreditamos que a forma mais eficiente para crescer é via aplicativo”, afirma.

Para o executivo, fazer aquisições é uma forma de cortar caminhos e acelerar o crescimento da empresa. “Uma coisa que demoraríamos dois anos para fazer, solucionamos em dois meses”, diz.

Segundo ele, a área de tecnologia é uma das que mais recebem investimentos, e tem uma equipe de 1.500 engenheiros de software.

As aquisições dos últimos anos integram-se às plataformas de serviços Magalupay, Magalu Pagamentos, Magalu Entregas, Magalu Ads, Luizacred, Luizaseg, Parceiro Magalu, Consórcio Magalu, Maga+ e ao Luizalabs.

“O conceito de superapp é o seguinte: as pessoas usam poucos aplicativos por dia, e foi assim que o WeChat começou”, diz Sérgio Saraiva, presidente do Rappi no Brasil. “Como engajar o usuário? Ter um app só garante que o usuário vá entrar milhares de vezes no aplicativo, e é isso que fazemos aqui”, explica.

WeChat é um app chinês que concentra diversos serviços, de mensagens a pagamento.

“Fizemos esse plano de investir em um superapp há cinco anos, e nossa proposta acabou encaixando no momento de crise”, diz Saraiva. O início da plataforma focada em restaurantes foi uma das estratégias para crescer no país, seguido de mercado, farmácia, passagens aéreas e pagamentos.

“Descobrimos que o usuário gosta de cash back [modalidade de venda em que parte do dinheiro gasto é devolvido]. O cliente quer imediatismo, vamos dar imediatismo”, diz “O usuário resolve seus problemas dentro de uma só plataforma.”

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